Por Evandro Brasil
Saúde Pública: Ao longo das minhas pesquisas e da minha vivência acompanhando de perto a realidade da saúde no Brasil, cheguei a uma convicção clara: a podologia ainda é subestimada, apesar de seu enorme impacto na qualidade de vida da população e nos custos do sistema público de saúde. Falar de pés é falar de mobilidade, autonomia, prevenção de doenças e dignidade — especialmente para idosos, pessoas com deficiência e pacientes crônicos.
A podologia é a área da saúde dedicada à prevenção, diagnóstico e tratamento das afecções dos pés. Isso inclui problemas comuns, como calosidades, unhas encravadas e micoses, mas também condições mais graves, como úlceras, infecções e complicações associadas ao diabetes. Não se trata de estética, mas de saúde funcional e preventiva.
Nas minhas pesquisas, um dado sempre me chama atenção: segundo estimativas do Ministério da Saúde e de sociedades médicas, cerca de 20% a 25% das pessoas com diabetes desenvolverão alguma lesão nos pés ao longo da vida. O chamado “pé diabético” é uma das principais causas de amputações não traumáticas no Brasil. Estima-se que mais de 70% dessas amputações poderiam ser evitadas com acompanhamento preventivo adequado — e a podologia pode ajudar a minimizar essas ocorrências.
O Brasil possui hoje mais de 16 milhões de pessoas com diabetes, além de uma população que envelhece rapidamente. O IBGE aponta que, até 2030, o número de idosos superará o de crianças no país. Idosos apresentam maior incidência de problemas circulatórios, alterações nas unhas, perda de sensibilidade e dificuldades de locomoção. Ignorar o cuidado podológico nesse contexto é, na prática, aceitar mais quedas, infecções, internações e afastamentos da vida social.
A inserção efetiva da podologia no SUS traria benefícios diretos e mensuráveis. Do ponto de vista econômico, a prevenção custa muito menos que o tratamento de complicações. Uma amputação gera custos hospitalares elevados, reabilitação prolongada e, muitas vezes, aposentadoria precoce por invalidez. Do ponto de vista social, o acompanhamento podológico regular reduz dor, infecções, limitações físicas e melhora significativamente a autonomia dos pacientes.
Minha experiência acompanhando projetos de saúde pública e ações comunitárias reforça algo essencial: prevenir é mais barato, mais humano e mais eficiente. Quando o SUS atua apenas de forma reativa, ele paga a conta mais alta — financeira e social. A podologia, integrada às equipes multiprofissionais da atenção básica, poderia atuar na triagem de riscos, no acompanhamento contínuo e na educação em saúde, orientando a população sobre cuidados simples que evitam problemas graves.
Defendo, com base em dados, prática e convicção pessoal, que a podologia deve ser vista como política pública estratégica, especialmente na atenção primária. Investir nesse cuidado é investir em mobilidade, envelhecimento saudável, redução de amputações e melhor uso dos recursos públicos.
Cuidar dos pés não é detalhe. É base. E saúde pública de verdade começa exatamente onde o corpo toca o chão.
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