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Automobilismo: Em 12 de maio de 1957, o automobilismo mundial testemunhou um dos episódios mais trágicos de sua história. O acidente envolvendo um carro da Ferrari durante a lendária Mille Miglia não apenas ceifou vidas, mas redefiniu os rumos das competições automobilísticas na Europa.
Mais do que um acidente, aquele domingo marcou o fim de uma era romântica e perigosa das corridas de rua.
A Mille Miglia: A Corrida que Simbolizava a Itália
Criada em 1927, a Mille Miglia — literalmente “Mil Milhas” — era uma prova de resistência disputada em estradas abertas, ligando Brescia a Roma e retornando ao ponto de partida. Ao longo de três décadas, tornou-se um símbolo do espírito automobilístico italiano, reunindo fabricantes como Ferrari, Maserati e Mercedes-Benz.
Era uma corrida épica, mas também brutal. Pilotos atravessavam vilas e cidades a velocidades extremas, dividindo o espaço com postes, pontes, casas e multidões de espectadores posicionados perigosamente próximos à pista.
O Acidente em Guidizzolo
Na edição de 1957, o piloto espanhol Alfonso de Portago conduzia uma Ferrari 335 S — um protótipo equipado com motor V12 de aproximadamente 4 litros, capaz de ultrapassar 300 km/h.
Faltando cerca de 70 km para a chegada, na vila de Guidizzolo, ocorreu a ruptura do pneu dianteiro esquerdo. O carro trafegava a mais de 240 km/h. A falha provocou a perda instantânea de controle.
O veículo saiu da pista, atingiu postes e estruturas laterais e foi lançado sobre um canal, colidindo violentamente contra espectadores.
O navegador americano Edmund Nelson morreu no local, assim como Portago. Nove espectadores — entre eles cinco crianças — também perderam a vida. Cerca de vinte pessoas ficaram feridas.
Causas Técnicas e Contexto
Embora a investigação tenha apontado o estouro do pneu como causa imediata, o acidente evidenciou fatores estruturais mais amplos:
Altíssimas velocidades em vias públicas
Ausência de áreas de escape
Proximidade extrema do público
Limitações tecnológicas dos pneus da época
Falta de protocolos modernos de segurança
A tragédia expôs a vulnerabilidade tanto dos competidores quanto do público em corridas realizadas em estradas comuns.
Consequências Jurídicas e Esportivas
O impacto foi imediato e profundo.
A Mille Miglia foi oficialmente encerrada como corrida de velocidade. A Itália passou a restringir severamente competições em vias públicas. O próprio fundador da Ferrari, Enzo Ferrari, foi processado sob acusação de homicídio culposo, sob a alegação de responsabilidade técnica pelo veículo. Após anos de tramitação, o caso foi arquivado.
No plano esportivo, o acidente acelerou mudanças estruturais no automobilismo:
Migração definitiva para circuitos fechados
Evolução nas normas de segurança
Maior controle técnico sobre pneus e componentes
Reconfiguração das responsabilidades das equipes e fabricantes
A década de 1960 seria marcada por avanços graduais em segurança, embora ainda distante dos padrões atuais.
O Fim da Era Romântica
Até os anos 1950, o automobilismo era visto como a última fronteira da bravura mecânica e humana. Pilotos eram tratados como cavaleiros modernos, enfrentando riscos quase inevitáveis.
O acidente de 1957 encerrou simbolicamente essa fase heroica e imprudente. A partir dali, a segurança passou a ser debatida como elemento estruturante do esporte — ainda que sua consolidação levasse décadas.
Legado Histórico
Hoje, a Mille Miglia existe como evento de regularidade para carros clássicos, uma celebração histórica sem a imprudência das velocidades extremas.
A tragédia de Guidizzolo permanece como um divisor de águas: um momento em que o automobilismo percebeu que a busca pela performance não poderia estar dissociada da responsabilidade.
Foi o dia em que a velocidade encontrou seus limites.
E o esporte nunca mais foi o mesmo.
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Divulgação:


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