A TRÍADE DINÂMICA ADAPTATIVA (TDA):
Uma Proposta Conceitual para Análise Sistêmica do Modelo Homem–Tarefa–Máquina
Autor do Estudo: Professor Evandro Brasil. Pedagogo; SST (Saude e Segurança do Trabalho). Instituto Evandro Brasil, Rio de Janeiro. Fev/2026.
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| Trabalhadores na Construção Civil. Imagem meramente ilustrativa. - Reprodução Agência Brasil. |
Resumo
O Sistema Homem–Tarefa–Máquina (HTM) constitui um dos pilares da ergonomia moderna, consolidado a partir da abordagem sistêmica do trabalho no século XX. Embora amplamente utilizado na Análise Ergonômica do Trabalho (AET), o modelo tradicional apresenta caráter predominantemente descritivo. O presente artigo propõe a Teoria da Tríade Dinâmica Adaptativa (TDA) como uma sistematização operacional do modelo HTM, introduzindo variáveis comparativas, princípios estruturantes e um indicador de equilíbrio sistêmico. A proposta visa oferecer um referencial metodológico aplicável à análise ergonômica contemporânea, permitindo elaboração de fluxogramas decisórios e suporte técnico à gestão de riscos ocupacionais.
Palavras-chave: Ergonomia; Sistema Homem–Tarefa–Máquina; Análise Ergonômica do Trabalho; Modelo Sistêmico; Gestão de Riscos.
1. Introdução
A ergonomia consolidou-se como disciplina científica no período pós-guerra, especialmente a partir da formalização da International Ergonomics Association (IEA), sendo definida como a ciência que estuda as interações entre seres humanos e outros elementos de um sistema.
O modelo Homem–Tarefa–Máquina (HTM) emergiu como representação estrutural dessas interações, fundamentando abordagens em fatores humanos, engenharia de segurança e psicodinâmica do trabalho.
Entretanto, a crescente complexidade dos sistemas produtivos — particularmente na era da automação e da Indústria 4.0 — demanda modelos analíticos mais operacionais e comparativos.
Nesse contexto, propõe-se a Tríade Dinâmica Adaptativa (TDA).
2. Fundamentação Teórica
2.1 Abordagem Sistêmica do Trabalho
A visão sistêmica aplicada à ergonomia tem raízes na Teoria Geral dos Sistemas (Bertalanffy, 1968), segundo a qual sistemas complexos devem ser compreendidos a partir da interação entre seus componentes.
Na ergonomia, essa abordagem foi incorporada aos estudos de fatores humanos e à análise da atividade real (Wisner, 1987).
2.2 Sistema Homem–Tarefa–Máquina
Autores clássicos como Iida (2005) e Grandjean (1998) destacam que o desempenho humano no trabalho depende da adequação entre:
- Capacidades humanas
- Exigências da tarefa
- Configuração técnica dos equipamentos
A Norma Regulamentadora nº 17 (NR-17) institucionaliza esse princípio ao determinar que as condições de trabalho devem ser adaptadas às características psicofisiológicas dos trabalhadores.
Contudo, a literatura tradicional descreve a interação HTM sem propor um modelo comparativo formal de equilíbrio.
3. A Teoria da Tríade Dinâmica Adaptativa (TDA)
3.1 Estrutura Conceitual
A TDA estrutura o sistema em três variáveis centrais:
- Capacidade Humana (CH)
- Exigência da Tarefa (ET)
- Configuração da Máquina (CM)
O equilíbrio ergonômico ocorre quando:
CH ≥ ET, com CM compatível com CH.
3.2 Princípios Estruturantes
A TDA fundamenta-se em três princípios:
3.2.1 Princípio do Alinhamento
O desempenho seguro depende da compatibilidade entre capacidades humanas e demandas operacionais.
3.2.2 Princípio da Compensação
Quando um elemento apresenta limitação, outro pode compensar, desde que tecnicamente ajustado.
Exemplo: Automação adequada pode reduzir sobrecarga cognitiva.
3.2.3 Princípio da Retroalimentação
O sistema deve possuir mecanismos contínuos de monitoramento para ajuste adaptativo.
Indicadores possíveis:
- Taxa de erro
- Fadiga
- Absenteísmo
- Incidentes
4. Indicador de Equilíbrio Sistêmico (IES)
Propõe-se a criação do:
IES = f (CH, ET, CM)
Onde:
IES Alto → Equilíbrio ergonômico
IES Moderado → Ajuste preventivo necessário
IES Baixo → Risco elevado
Esse indicador permite operacionalizar a análise ergonômica, superando abordagens exclusivamente qualitativas.
5. Aplicabilidade Metodológica
A TDA possibilita a construção de um fluxograma decisório com as seguintes etapas:
1. Avaliação da Capacidade Humana
2. Análise da Exigência da Tarefa
3. Verificação da Configuração da Máquina
4. Comparação CH × ET
5. Avaliação compensatória da CM
6. Proposição de ajustes
7. Monitoramento contínuo
Esse modelo é compatível com:
- Análise Ergonômica do Trabalho (AET)
- Gestão de Riscos Ocupacionais
- Projetos de concepção industrial
- Sistemas automatizados
6. Discussão
A principal contribuição da TDA é transformar o modelo HTM de estrutura descritiva para ferramenta analítica comparativa.
Enquanto a ergonomia clássica identifica interações, a TDA permite:
- Hierarquização de riscos
- Construção de indicadores
- Formalização de decisões técnicas
- Integração com sistemas de gestão
A proposta dialoga com a ergonomia contemporânea, que exige métricas e integração com modelos de governança organizacional.
7. Conclusão
A Tríade Dinâmica Adaptativa não substitui o modelo Homem–Tarefa–Máquina, mas o sistematiza em estrutura comparativa e operacional.
Sua contribuição reside em:
- Formalização conceitual
- Integração de princípios de alinhamento e compensação
- Introdução de indicador de equilíbrio
- Aplicabilidade prática via fluxograma
Trata-se de proposta teórica derivada dos fundamentos clássicos da ergonomia, com potencial de aplicação didática e técnica.
Referências Bibliográficas
BERTALANFFY, L. Teoria Geral dos Sistemas. 1968.
GRANDJEAN, E. Manual de Ergonomia: adaptando o trabalho ao homem. Porto Alegre: Bookman, 1998.
IIDA, I. Ergonomia: Projeto e Produção. São Paulo: Edgard Blücher, 2005.
WISNER, A. Por Dentro do Trabalho. São Paulo: Oboré, 1987.
International Ergonomics Association. Definition of Ergonomics.
Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 17 – Ergonomia.
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